Comunidade de ex-escravos mergulha na era digital - Projeto GESAC
15/05/2005
Internet
Da Reuters
Durante três séculos, os moradores desse antigo quilombo viveram praticamente isolados do restante da sociedade brasileira.
Escondida no Vale do Paraíba, a 290 km de São Paulo, a comunidade não tem telefone nem outros serviços públicos básicos. Alguns dos 300 moradores ainda vivem em casas de pau-a-pique.
Mas, numa experiência revolucionária do governo, Ivaporunduva está entrando na era digital. Num esforço para combater a pobreza, o isolamento da comunidade se transformou em passado com a instalação de conexão de Internet por satélite.
Agora, os moradores podem marcar consultas online, encontrar novos mercados para vender suas frutas e baixar planos de aula da Internet.
Num dos maiores experimentos da história na área do combate à pobreza utilizando a tecnologia da informação, o governo federal instalou Internet por satélite em 3.200 comunidades rurais nos últimos dois anos. Outras 1.200 serão colocadas este ano.
"A inclusão digital é uma política eficiente para proporcionar a inclusão social, e é mais eficaz que muitas outras políticas sociais", disse à Reuters Antonio Albuquerque, chefe do Governo Eletrônico -- Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac).
Cada conexão por satélite alimenta em média seis computadores, a maioria doados. Para baratear os custos, todos os sistemas, inclusive o programa nos satélites, são de livre divulgação. O governo afirma que o programa elevará o número de usuários de Internet de 18 milhões para 24 milhões.
A inovadora política se revelou ao mesmo tempo visionária e polêmica. Além de ligar comunidades pobres através de satélite, incentivou os ministérios a adotar softwares livres para evitar os gastos milionários com a Microsoft.
BENEFÍCIOS
Em Ivaporunduva, já há sinais de avanços desde a instalação da Internet, há um ano. O computador da comunidade fica perto da ainda sólida igreja erguida em 1630, que os quilombolas ampliaram em 1690, antes do declínio da mineração na região. Uma pequena parabólica, como as de TV por assinatura, recebe o sinal.
Antes, o antigo quilombo, pobre demais para atrair empresas de telefonia fixa ou celular, tinha que depender de um precário telefone por rádio que tinha péssima qualidade de som -- principalmente se algum morador da comunidade estivesse ouvindo música. O rádio queimou há alguns meses.
"A gente se comunica com o INSS por e-mail. É muito útil", disse Maria da Guia, 43, líder comunitária do antigo quilombo, fundado por escravos fugitivos.
"Foi uma grande vitória para nós porque os moradores mais antigos dos quilombos têm direito de receber 260 reais por mês de aposentadoria."
A renda média na comunidade, que sobrevive com a agricultura de subsistência, é de cerca de 200 reais por mês.
Os moradores também estão tendo acesso a outros programas sociais, como um voltado a mulheres grávidas. Além disso, a conexão com a Internet pode aumentar a renda mensal do vilarejo em milhares de reais por mês.
Com ela, eles estão conseguindo ter acesso a mercados maiores, como um revendedor de Santo André, ao qual vendem bananas orgânicas.
"Agora, iremos para a Ceasa de Santo André o tempo todo", disse Alexandro Marinho da Silva, 25, um dos maiores usuários da Internet na comunidade. Os moradores mais jovens tendem a ser mais escolarizados que os mais velhos, dos quais muitos são analfabetos.
"Usamos a Internet para entrar em contato com os responsáveis pela Ceasa e depois fomos nos encontrar com eles."
Outros moradores usam a Internet para organizar visitas turísticas para cavernas próximas dali e ao quilombo, que é um entre os dezenas do Vale do Paraíba.
"O fato de essas comunidades estarem obtendo atendimento de saúde, benefícios sociais e informações de mercado já é uma conquista significativa", disse Jennifer L. Bussell, que integra uma equipe da Universidade da Califórnia em Berkeley que estuda a computação de baixo custo na Índia. Na próxima década, mais benefícios serão conquistados, conforme os usuários adquirirem sofisticação, disse ela.
Dez computadores mais poderosos recentemente doados receberão novos programas, como o de comunicação por voz.
Mas Alexandro já descobriu que informação é poder.
Ele monitora a rede para ver se há forasteiros tentando derrubar uma decisão que interrompeu a construção de quatro barreiras no rio Ribeira. Elas forneceriam energia para a Companhia Brasileira de Alumínio. "Se eles construírem uma barragem, vão construir todas, e vamos afundar", disse Alexandro.
fonte: http://www.atarde.com.br/materia.php3?mes=05&ano=2005&id_materia=2224 (09/07/2005)

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