"Internet paralela" é proposta de reunião sobre Sociedade da Informação
22/9/2005
Que tal rachar a internet, criando uma "rede paralela", administrada apor países em desenvolvimento? A idéia foi aventada por um dos membros da delegação brasileira numa reunião sobre sociedade da informação realizada em Genebra, na Suíça. O encontro de Genebra é preparatório para a segunda fase da Cúpula Mundial da sociedade da informação, marcada para novembro na Tunísia. Um dos pontos "quentes" da discussão é a governança da internet - em outras palavras, quem manda neste barraco.
Trata-se, curiosamente, uma pergunta bem difícil de responder. Por exemplo, padrões técnicos são definidos pela internet Engineering Task Force (Força-Tarefa de Engenharia da internet, ou IETF), um grupo aberto, de participação voluntária e bastante informal.
Já a administração de endereços e nomes de domínios - responsável por garantir que os endereços na internet correspondam aos websites corretos - fica a cargo da ICANN, sigla em inglês para Corporação para Nomes e Números Designados na internet. A ICANN é bem menos informal que a IETF: trata-se de uma corporação (ainda que sem fins lucrativos) contratada para desempenhar sua tarefa pelo Departamento de Comércio dos EUA. Essa vinculação contratual com o governo americano gera um certo incômodo no resto do mundo: muita gente preferiria ver a ICANN, ou alguma outra organização com o mesmo papel, atuando sob os auspícios da ONU, por exemplo. Outro problema que costuma ser apontado por políticos e diplomatas é que a internet não tem um instrumento de coordenação política. A IETF, a ICANN e outras organizações têm caráter estritamente técnico: ninguém tem poder ou autorização para baixa leis, decretos ou assina tratados "da" internet ou "pela" internet. Nesse aspecto, a rede existe numa espécie de vácuo. Uma resposta comum a essa questão é outra questão: o que há de mau nisso? Os burocratas já não estão felizes infernizando a vida da gente no mundo físico, agora querem também o ciberespaço?
Claro, essa objeção pode ser ingênua. Alguém pode argumentar que, dada a vinculação da ICANN com o governo dos EUA, já há burocratas por trás da rede - os americanos - prontos para dar o bote a qualquer momento.Nesse ponto de vista, a "internet paralela" teria o mérito de acabar com a ilusão da neutralidade política da rede. Mas a idéia de uma internet sustentada por - como se disse em Genebra - Brasil, Índia, África do Sul e China também não seria livre de problemas. Afinal, quem iria querer entrar numa internet controlada pela China, onde mandar um e-mail falando mal do governo pode dar cadeia?
E aqui chegamos ao ponto central da questão: a vontade do usuário. A idéia da "internet do B" ainda é muito especulativa para que se possa saber exatamente do que se trata, mas logo de cara corre o risco de se transformar em mais um tipo de incompatibilidade tecnológica artificial - como entre PAL-M e NTSC, ou as quatro regiões do mercado de DVDs - que os cidadãos de sociedades abertas e democráticas sempre dão um jeito de contornar. Se for assim, a "rede paralela" só funcionará, mesmo, na China. [fonte: O Estado de São Paulo]

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